10 de janeiro de 2010

Entre a alma e a carne


Comecei a ler ‘O Santo de Deus’ um pouco assustada, sem saber como o autor trataria tema tão árido. Mas à medida que os olhos corriam as letras, o interesse cresceu, a leitura ganhou amplo espaço, a beleza se descortinou sob o véu da inteligência, humanidade e perspicácia do autor.

‘O Santo de Deus’ é uma obra fantástica, vazada numa linguagem castiça, que encanta, fascina, pela forma como o escritor desnuda a comunidade de Lavras – aquela do massacre, na década de 90, no rio Tauari - colocando-a no epicentro do cenário selvagem amazônico. Na narrativa, o comportamento humano comunga com o isolamento na floresta, num mundo sem letras, aonde o fanatismo religioso conduz às pessoas a eletrizante drama de vida.

Não é um romance de ficção, mas uma narrativa real, com fatos que intrigam, instigam o leitor a ler mais, a saber mais sobre uma tragédia humana que ganha dimensões inimagináveis. Muitos membros da comunidade de Lavras são dizimados para expiar pecados, à luz de preceitos bíblicos mal interpretados, sob o prisma de um mundo minúsculo, onde o humano social se confunde com o animal irracional. É a selva de animais humanos, ao jugo de suas próprias leis e crenças.

‘O Santo de Deus’ conta a história da irracionalidade humana, do absurdo, da insensatez de pessoas que vivem isoladas, tendo como janela a religião, que ao tempo em que ampara, também conduz a condutas cegas, reprováveis pela sociedade civil, socialmente organizada, instruída, preparada para ler letras, pessoas, fé, religião, política, ambiente e convívio social.

O autor, em “O Santo de Deus”, encanta o leitor não apenas pela erudição que demonstra no correr da obra, pelo conhecimento religioso, conhecimento do mundo, da psicologia humana, da alma humana, senão, também, seduz pelo modo sábio como conduz a narrativa, que envolve o majestoso cenário amazônico e todos os mistérios ali presentes. Compreende, no esplendor da narrativa, como o ser humano é frágil produto do meio físico-social, podendo, a qualquer instante, ser arrebatado por ele, elevando-se ao Céu ou ao mais sombrio recanto da natureza animal.

Desejo ao escritor, que o clamor desta obra, que fala da cegueira humana, não fique nela mesma, vá além do horizonte amazônico. Que essa leitura sobre a alma das pessoas de Lavras -- seus deslizes, dramas, pesadelos, ignorância, fanatismo, rudez – consiga motivar o mundo a tirar tanta gente das trevas da ignorância e da injustiça social.

Esse grito em “O Santo de Deus” é tão bonito, forte, justo e oportuno, que não pode ser dispersado no deserto de uma sociedade sem alma. Pois, ainda hoje, o massacre prossegue, não em Lavras, mas em outras partes da Amazônia, do mundo. A rapina voraz continua, pois somente alguns poucos países são chamados ‘grandes’, ‘ricos’. Muitos são devedores, pequenos, pobres, não desenvolvidos. Caim continua a matar. Abel continua a ser morto. O genocídio prossegue lúgubre, pavoroso, dentro de cada país. Muitos são os poderosos a extorquir, vampirizar, oprimir e anular massas intensas de carentes, mantendo a diabólica injustiça que a corrupção ou mesmo a estrutura social e a dinâmica político-administrativa ‘legitimamente’ facilitam.

Assim, já dentro do terceiro milênio, o tema do presente livro procura resgatar uma caminhada, cujos fundamentos éticos são aplicados à moral da vida, permitindo novas inspirações que o contato com o pensamento humanista possa trazer, na busca de soluções para os problemas sociais e políticos contemporâneos.

Parabenizo o Autor, o escritor Moisés Diniz, pelo presente que oferta à Literatura Regional, à Amazônia, ao Brasil, ao mundo. Sua obra tem um texto comovedor, por adentrar na alma humana e nela possibilitar uma pluralidade de leituras que podem melhorar a vida. Uma leitura que deve contar em todos os corações humanamente inteiros e em todas as antologias de humanismo, política e religião. Entrem no livro, despojadamente, como num banho de água e de sol, para sair com a urgente necessidade de fraternidade universal.

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